Ato-Rede 2022-2023 - provocação
Periferização da Tecnologia
João Sérgio Assis
Acredito que a discussão da periferização deve ser expandida para além da ciência e englobar também a Tecnologia. Na minha tese estudei um momento na história do Brasil em que se optou por se desenvolver tecnologia na periferia para que se pudesse explorar petróleo nas águas profundas.
A partir dos meus estudos, percebi que os momentos em que foi possível o desenvolvimento local de tecnologia foram aqueles nos quais, por algum motivo, a porta da importação de tecnologia “pronta” estava fechada. Se a ligação entre o centro e a periferia se interrompe, é possível que novos centros aflorem na periferia. No caso da exploração de petróleo em águas profundas essas condições foram criadas pela descoberta de grandes quantidades de petróleo em profundidades inalcançáveis para a tecnologia existente.
Mesmo assim, não é fácil na periferia conseguir um consenso sobre a oportunidade e relevância de se desenvolver tecnologia própria, mesmo que para realizar um projeto nacional perseguido por décadas, como era exploração de petróleo no país. Uma guerra política teve de ser travada, e vencida, contra aqueles que defendiam que, ao invés de investir no desenvolvimento de tecnologia, era melhor gastar o dinheiro importando petróleo, cujo preço, na época, enfrentava uma fase de baixa.
Mesmo assim, foi uma vitória temporária. Desenvolver tecnologia leva tempo e consegue primeiro quem tem mais dinheiro para investir. Como no caso da ciência, na tecnologia também “a antecedência gera a referência”. Os defensores da importação da tecnologia defendem que “não se deve reinventar a roda”. E, caso a tecnologia tenha se desenvolvido, para privilegiar o produto do centro passa-se a depreciar o produto da periferia: é mais caro, é uma cópia, é mais atrasado ou, simplesmente, não funciona.

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